Vida Selvagem panhandle

Migração das monarcas no St. Marks NWR — o último posto de combustível da Flórida antes do México

Todo outubro, as borboletas-monarca descem em funil pela costa do Golfo do Panhandle e fazem escala no St. Marks NWR, abastecendo no saltbush e na vara-de-ouro antes da longa travessia até o México. Veja como observá-las sem causar dano.

por Silvio Alves
Duas borboletas-monarca sugando néctar de vara-de-ouro durante a migração de outono
Monarcas na vara-de-ouro durante a migração de outono — Wikimedia Commons · Monarchs nectaring on goldenrod by Joanna Gilkeson/USFWS · Public domain

Dirija pela estrada sem saída até o St. Marks Lighthouse numa manhã clara do fim de outubro, logo depois de uma frente fria passar, e você vai notar o ar sobre o saltmarsh se movendo. Não é vento — são asas. Centenas de borboletas-monarca, laranja e preto, levantando voo do saltbush e da vara-de-ouro, deslizando para o sul e o oeste pela borda do Golfo.

Não são borboletas locais passeando pelo quintal. Cada uma delas está a caminho de um punhado de florestas de montanha no centro do México, a vários milhares de quilômetros — uma viagem que nenhuma borboleta jamais repetirá, porque as que voam para o sul não serão as que voltam.

Pesam menos que um clipe de papel e estão cruzando o Golfo do México. O mínimo que podemos fazer é não ficar parados na rota de voo.

St. Marks é um dos melhores lugares do leste dos Estados Unidos para presenciar isso — porque a geografia canaliza toda a população oriental de monarcas bem em frente ao farol.

O animal

A monarca (Danaus plexippus) é a famosa borboleta laranja e preta que quase todo mundo sabe nomear, e a única borboleta norte-americana que faz uma verdadeira migração de ida e volta como uma ave. A população oriental se reproduz por todos os Estados Unidos e o sul do Canadá durante o verão e, no outono, uma única “supergeração” — feita para viver oito ou nove meses em vez das poucas semanas habituais — voa até as florestas de oyamel do centro do México para passar o inverno aglomerada aos milhões.

As monarcas dependem de uma única planta. As lagartas comem apenas erva-leiteira (Asclepias), que as carrega de toxinas tornando-as venenosas para a maioria dos predadores. Sem erva-leiteira, não há monarcas — é simples assim. Os adultos sugam néctar de uma ampla variedade de flores de outono, mas as larvas são especialistas, e essa única dependência está no centro do declínio.

E o declínio é acentuado. A população migratória oriental caiu cerca de 80 por cento nas últimas décadas, impulsionada pela perda de erva-leiteira no cinturão agrícola, pela destruição de habitat tanto nas áreas de reprodução quanto de invernada, pelos pesticidas e por um clima mais quente e errático. No fim de 2024, o U.S. Fish and Wildlife Service propôs formalmente listar a monarca como ameaçada sob a Endangered Species Act — candidata à proteção federal. A borboleta que você vê em St. Marks está de fato em apuros.

É isso que torna esta escala digna de ser compreendida. O St. Marks National Wildlife Refuge fica sobre a Apalachee Bay, onde a costa do Golfo do Panhandle da Flórida se curva. As monarcas que migram rumo ao México são empurradas pela linha de costa e se acumulam aqui, na ponta sul do refúgio — em torno do histórico farol de St. Marks de 1842 e do saltmarsh ao redor — para reabastecer antes da longa travessia sobre a água.

Onde e quando ver

A ação se concentra na ponta sul da Lighthouse Road, a estrada de entrada principal do refúgio, de 7 milhas, que termina no farol sobre a baía. O último trecho da estrada, o estacionamento do farol e as trilhas na borda do marsh são onde se concentram as plantas de néctar e as borboletas.

  • As plantas são o mapa. Procure o saltbush (Baccharis, “groundsel bush”) em plena floração branca e a vara-de-ouro ficando amarela ao longo dos diques e das bordas do marsh em outubro. Onde elas estiverem florindo, as monarcas estão se alimentando. Caminhe devagar pelos diques das lagoas perto do farol e examine as inflorescências.
  • Acerte a estação. O pico são algumas semanas em meados ou no fim de outubro. Cedo demais e a frente da migração ainda não chegou; tarde demais e elas já partiram.
  • Acerte o clima. As melhores manhãs vêm depois de um vento norte — uma frente fria empurra as borboletas pela costa durante a noite, e elas se acumulam no litoral esperando condições para cruzar. As manhãs calmas e ensolaradas que seguem esse vento norte são quando você vê os maiores números trabalhando o saltbush. Em dias frios, cinzentos ou ventosos, talvez você não veja quase nada.
  • Hora do dia. Meio da manhã, assim que o sol esquentou o ar o suficiente para as borboletas voarem, até o início da tarde.

St. Marks também realiza um Monarch Butterfly Festival anual no fim de outubro e um programa de etiquetagem de monarcas de longa data — pesquisadores e voluntários treinados aplicam minúsculas etiquetas numeradas nas asas, e algumas dessas etiquetas são depois recuperadas nas colônias de invernada no México, comprovando a ligação entre este trecho da costa da Flórida e as florestas de oyamel.

Como ver do jeito certo

Esta é a parte que mais importa. Uma monarca em escala está queimando reservas de gordura de que precisa para a travessia do Golfo — cada interrupção lhe custa.

  1. Não as capture com rede, não as pegue nem as manuseie. Etiquetar parece fácil e inofensivo; não é nem uma coisa nem outra. Deixe isso inteiramente para os pesquisadores autorizados e voluntários treinados que tocam o programa do refúgio. Uma asa apertada ou uma etiqueta mal posta pode deixar uma monarca em terra para sempre.
  2. Mantenha distância e mova-se devagar. Caminhe com leveza entre as plantas de néctar. Não entre nos canteiros de flores para chegar mais perto da foto — você vai espantar as borboletas que se alimentam e pisotear o próprio saltbush e a vara-de-ouro de que elas dependem. Use uma teleobjetiva ou simplesmente tenha paciência; uma monarca se alimentando costuma deixar você se aproximar nos termos dela.
  3. Fique nas estradas, diques e trilhas estabelecidas. As lagoas, o marsh e as comunidades vegetais do refúgio são habitat manejado. Pisotear fora da trilha danifica os recursos de néctar e perturba a escala.
  4. Não deixe rastro e evite repelente perto das flores. Leve tudo de volta. Inseticidas e até alguns repelentes são hostis aos polinizadores — aplique longe das plantas de néctar e das borboletas.
  5. Faça o verdadeiro trabalho de conservação em casa. A coisa mais útil que você pode fazer pelas monarcas é plantar erva-leiteira NATIVA e plantas de néctar de outono no seu próprio quintal. E algo crucial: evite a erva-leiteira tropical (Asclepias curassavica) — a variedade comum de viveiro, vermelha e amarela. No Sul quente ela não morre no inverno, o que permite o acúmulo nas folhas de um parasita mortal (OE) e pode atrapalhar a migração. Plante espécies nativas como butterfly milkweed e swamp milkweed, e acrescente floradas nativas de outono — vara-de-ouro, asters, blazing star — para que os adultos em migração tenham combustível.

St. Marks é um National Wildlife Refuge: existe para proteger este habitat, e a possível listagem federal da monarca só aumenta o que está em jogo. Comporte-se como convidado num lugar que mantém viva uma espécie ameaçada.

Condições, com honestidade

Pode ser que você não veja uma nuvem de monarcas. É normal. A migração vem em pulsos e depende do clima — pegue uma sequência de ventos quentes do sul ou uma semana cinzenta e ventosa, e você pode encontrar um punhado de borboletas e muito saltbush vazio. Os dias do grande espetáculo exigem a combinação de bom momento e bom clima. Vá com a expectativa de um refúgio tranquilo e bonito, e encare um grande voo como um bônus.

Leve binóculos e paciência. Mesmo num bom dia, as borboletas estão espalhadas pela borda do marsh, não amontoadas numa única árvore. Caminhar devagar vale mais do que dirigir rápido.

Insetos e calor. É um saltmarsh na Flórida — espere mosquitos e mutucas, sobretudo com o ar parado, e leve água e proteção solar. As manhãs são as melhores tanto para as borboletas quanto para o seu conforto.

Multidões. Fins de semana no pico de outubro, e principalmente o dia do festival, trazem multidões reais a uma estrada estreita e a um pequeno estacionamento junto ao farol. Uma manhã de dia de semana é mais tranquila para você e mais gentil com as borboletas.

Confira antes de dirigir. A Lighthouse Road pode fechar ou restringir o acesso por manejo ou por clima, e o refúgio cobra uma taxa de entrada padrão (os passes de terras federais são aceitos). Confirme horários e fechamentos no site do refúgio antes de pegar a estrada.

O que não é

Não são as colônias de invernada do México — você não vai ver milhões de monarcas cobrindo as árvores. Isto é uma parada para reabastecer, não o destino, e os números sobem e descem a cada frente. Também não é um borboletário nem uma atração de avistamento garantido; é um refúgio selvagem onde as chances dependem do calendário e do céu. Se você precisa de certeza, ou esperava segurar uma borboleta para uma foto, esta não é a sua viagem — e é exatamente esse o ponto.

Se for

  • Cidade mais próxima: St. Marks / Crawfordville, a cerca de 30–40 minutos ao sul de Tallahassee.
  • Quando: meados ou fim de outubro, uma manhã calma e ensolarada depois de um vento norte. Faça coincidir com o Monarch Butterfly Festival se quiser demonstrações e naturalistas.
  • Leve: binóculos, uma teleobjetiva ou um celular com mão paciente, água, proteção solar, repelente (aplicado longe das flores) e a taxa de entrada padrão do refúgio ou um passe de terras federais.
  • Combine com: observação de aves e jacarés nas mesmas lagoas da Lighthouse Road — St. Marks é uma das melhores áreas de invernada para aves aquáticas e pernaltas, então o passeio se paga mesmo num dia fraco de borboletas.
  • Leve para casa a verdadeira tarefa: plante erva-leiteira nativa e plantas de néctar de outono — e evite a Asclepias curassavica tropical.
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Silvio Alves
Silvio Alves
Publicado 12 de maio de 2026