A colônia de garças de St. Augustine — onde garças selvagens nidificam de propósito sobre um fosso de jacarés
Toda primavera, garças-brancas, garças-pequenas, garças-tricolores e colhereiros selvagens escolhem nidificar nas árvores baixas penduradas bem acima do lago de jacarés da St. Augustine Alligator Farm. Não é coincidência: é um acordo.
A St. Augustine Alligator Farm é, à primeira vista, uma atração de beira de estrada da Flórida que vende ingressos para olhar répteis desde 1893. Você paga, entra, vê jacarés. Essa parte é exatamente o que você esperaria.
Aí você vira uma esquina para uma passarela e há uma garça-branca a meio metro do seu rosto, de pé sobre um ninho, alimentando um filhote, completamente indiferente a você. Acima dela, garças-pequenas com plumas nupciais finas como renda. Uma garça-tricolor entrelaçando um graveto no ninho. E embaixo de todas elas, na água verde, cem jacarés deitados, imóveis, de boca entreaberta.
As aves são selvagens. Ninguém as colocou ali. Chegaram voando por conta própria e escolheram criar seus filhotes bem acima de um fosso de predadores, e essa escolha é uma das coisas mais inteligentes da natureza da Flórida.
As garças não nidificam apesar dos jacarés. Elas nidificam por causa deles. É a segurança residencial mais barata do reino animal: você só precisa aceitar que seu senhorio coma quem quer que caia.
O animal
Não é uma única espécie: é toda uma assembleia primaveril de aves pernaltas do norte da Flórida, comprimidas em poucos acres de árvores baixas sobre um único lago.
As protagonistas:
- Garça-branca-grande (Ardea alba) — a grande e branca, de quase 1,2 metro de altura, com aquele pescoço em S e, na primavera, um leque de plumas delicadas (as aigrettes) caindo das costas. Essas plumas são justamente o motivo pelo qual a espécie quase desapareceu há um século.
- Garça-pequena (Egretta thula) — menor, de pernas pretas, pés amarelos brilhantes e plumas nupciais desgrenhadas que parecem renda ao vento.
- Garça-tricolor (Egretta tricolor) — esguia, cinza-azulada com uma faixa branca no ventre, uma caçadora de aparência séria.
- Garça-vaqueira (Bubulcus ibis) — mais robusta, com um tom alaranjado na cabeça e nas costas na época de reprodução.
- Garça-azul-pequena (Egretta caerulea) — de um roxo-ardósia quando adulta, totalmente branca quando jovem (o que confunde todo mundo).
- E em alguns anos, colhereiros (Platalea ajaja) — rosados, de bico em forma de colher, o grande espetáculo — e cabeças-secas (Mycteria americana), a única cegonha nativa dos EUA, protegida em nível federal e de cabeça calva.
E aqui vai o dado de história natural que faz o lugar todo funcionar, e é um acordo real entre predador e presa, não uma historinha bonita: as aves selvagens escolhem nidificar nas árvores baixas bem acima de jacarés em cativeiro, porque os jacarés comem qualquer guaxinim, cobra-rateira ou gambá que tente subir até os ovos e filhotes. Os guaxinins são o predador número um dos ninhos das aves pernaltas da Flórida. Um guaxinim esvazia uma colônia inteira em poucas noites. Mas, para isso, ele tem que atravessar água e galhos pendurados sobre um muro de jacarés, e raramente faz a viagem duas vezes. Então as aves trocam a proximidade dos jacarés pela proteção dos filhotes.
O acordo não é de graça. A natureza não é sentimental. Um filhote que cai do ninho aterrissa no lago, e os jacarés estão bem ali esperando. Não é uma falha do sistema: para os jacarés, os filhotes caídos e a segurança que oferecem são o motivo de todo esse arranjo ser estável. As aves ganham guarda-costas. Os jacarés ganham um gotejar lento de comida. Os dois lados saem ganhando, que é o único tipo de acordo que dura na natureza.
Há um século, caçadores de plumas mataram garças-brancas e garças-pequenas aos milhões para abastecer a indústria de chapéus: as plumas de garça chegaram a valer mais que ouro por peso. A espécie despencou. A revolta com aqueles massacres nas colônias é, mais ou menos, a origem do movimento conservacionista americano e da Audubon Society. Ver hoje uma colônia lotada e próspera é ver essa recuperação ao vivo.
Onde e quando ver
A colônia se forma sobre o lago de jacarés da St. Augustine Alligator Farm Zoological Park, em Anastasia Island, em St. Augustine, nordeste da Flórida, a cerca de 40 minutos de carro ao sul de Jacksonville, ou duas horas a nordeste de Orlando.
Ela é amplamente considerada a colônia de aves pernaltas primaveril mais famosa e acessível da Flórida, e merece esse título por um motivo simples: uma passarela do parque —chamada literalmente de the Rookery— atravessa o meio das árvores de nidificação e te deixa a poucos passos de ninhos ativos. Não precisa de luneta nem de paciência. As aves estão ali, na altura dos olhos, fazendo de tudo. É por isso que fotógrafos de natureza viajam do mundo todo durante algumas semanas a cada primavera.
Quando:
- Março — cortes, formação de casais e a plumagem nupcial mais vistosa. As garças-brancas exibem seu lóro verde-limão (a área diante do olho que ganha cor só na época de reprodução). Os colhereiros, se vierem, chegam rosados.
- Abril–maio — o ponto certo. Adultos ainda com boa cor, ninhos cheios de filhotes, tráfego constante de alimentação. Ação máxima.
- Junho — filhotes ganhando penas, atividade diminuindo. Ainda vale a pena, mas passado o pico.
Vá cedo de manhã num dia limpo de semana para a melhor luz e o menor número de pessoas. As aves alimentam os filhotes com mais intensidade no frescor da manhã.
Como ver do jeito certo
Esta é a parte que mais importa, porque o jeito como você se comporta numa colônia decide se as aves vão continuar voltando para ela.
São aves selvagens nidificando nos seus próprios termos. A passarela é um privilégio, não um direito, e seu único trabalho é ser um convidado silencioso.
- Fique na passarela. Sempre. Nunca saia dela, nunca se debruce na grade em direção a um ninho, nunca tente alcançar uma ave ou um filhote. As aves toleram a passarela porque ela é uma linha fixa e previsível. Se você quebra essa linha, quebra o acordo.
- Mantenha a voz baixa. Fale baixinho. A colônia é barulhenta por causa das próprias aves, mas vozes humanas e sons repentinos espantam os adultos dos ninhos, e um adulto que abandona o ninho deixa ovos ou filhotes expostos, mesmo que por alguns minutos.
- Nada de flash agressivo perto dos ninhos, nem reprodução de cantos. Não dispare um flash na cara de uma ave nidificando, e nunca use cantos gravados para fazer uma ave reagir para uma foto. As duas coisas são estressantes e, numa colônia, realmente prejudiciais. Aliás, aqui sobra luz natural: as aves estão bem na sua frente.
- Não se amontoe. Se há um grupo de fotógrafos num ninho, espere sua vez ou siga em frente. Não entre empurrando, não bloqueie a passarela, não transforme as aves na corda de um cabo de guerra.
- Deixe as partes difíceis em paz. Se um filhote cai, ele cai. Não tente intervir, não suba, não grite. É o sistema funcionando como funciona há milhares de anos: sua interferência piora, não melhora.
E leve isso para casa: o motivo de esta colônia ser tão segura é o guarda-costas do lago de jacarés, que as colônias selvagens do resto da Flórida não têm. A maioria fica em brejos e pântanos remotos, vulnerável a guaxinins, seca e perda de hábitat. Apoie a proteção das áreas úmidas e dos hábitats —a restauração dos Everglades, a gestão da água que mantém os pântanos alagados, os santuários da Audubon— porque é isso que protege os 99% das aves pernaltas da Flórida que não podem nidificar sobre um fosso cheio de jacarés.
Fique na passarela e fique quieto. As aves estavam aqui antes da bilheteria, e vão te julgar de acordo.
Condições, com honestidade
- É uma atração paga. A colônia fica dentro da St. Augustine Alligator Farm: você paga o ingresso geral para entrar. Espere um preço no estilo zoológico (na faixa de ~30 USD por adulto no geral; confira o preço atual antes de ir). Para fotógrafos dedicados, o parque vende passes de entrada antecipada para fotografia na primavera, que valem a pena se luz e acesso são o objetivo da sua viagem.
- Fica cheio. Esta é a colônia primaveril, e a multidão de fotógrafos sabe disso. Fins de semana e o meio-dia em abril podem significar um muro de teleobjetivas nos melhores ninhos. As manhãs cedo de semana são muito mais calmas.
- A hora é tudo. Chegue em fevereiro e as árvores estão quase vazias. Chegue em julho e o espetáculo acabou. A janela é real e sazonal: de março a junho, com pico em abril–maio.
- Continua sendo uma atração de beira de estrada. Você divide o parque com famílias, carrinhos de bebê, os shows de alimentação de jacarés e a loja de souvenirs. Isto não é um esconderijo silencioso no meio do mato. As aves fizeram as pazes com isso; você também deveria.
- Calor e sol. É o litoral do norte da Flórida: leve água, boné e protetor solar mesmo na primavera. Há sombra em partes da passarela, mas não em todas.
O que não é
Não é uma expedição selvagem fora do mapa. Você não conquista esse avistamento com um caiaque e uma remada ao amanhecer rumo ao interior: você compra um ingresso e caminha numa passarela. Se o que você busca é a jornada, não é isto.
Não é uma garantia de todas as espécies. Garças-brancas e garças-pequenas, garças-tricolores e garças-vaqueiras são confiáveis a cada primavera. Os colhereiros e as cabeças-secas variam de ano para ano: em algumas primaveras nidificam aqui em bom número, em outras quase nada. Não dirija até aqui esperando rosa garantido.
Não é um lugar para “chegar mais perto”. A distância da passarela já é absurdamente curta, mais perto do que você chegará de garças selvagens nidificando em quase qualquer lugar do mundo. A tentação de exigir mais é justamente a tentação a resistir.
E não é a única colônia da Flórida, só a mais fácil. Se isto acender uma faísca, a verdadeira aventura são as colônias selvagens dos Everglades, das ilhas do Golfo e dos santuários de pântano, onde as aves nidificam sem um destacamento de segurança reptiliano e precisam de cada acre de área úmida protegida que pudermos dar a elas.
