Jonathan Dickinson — O Rio Selvagem, a Montanha Hobe e o Maior Parque Esquecido do Sul da Flórida
Onze mil e quinhentos acres de pinheiral e restinga arenosa a trinta minutos ao norte de Jupiter, abraçando o primeiro rio federalmente classificado como Wild & Scenic da Flórida. O turista passa direto. Quem mora ali sabe que é o pedaço mais selvagem num raio de cento e sessenta quilômetros.
Você sai da I-95 em Bridge Road, dirige dois quilômetros para o leste cortando o trânsito de Hobe Sound, encontra a US-1, e a parede de pinheiros do lado oeste da rodovia é a única pista de que você está prestes a sair do sul da Flórida de vez. Seis dólares no guichê do guarda, o portão abre, e os próximos 11.500 acres formam o maior parque estadual do sudeste da Flórida — ciprestes na beira do rio, restinga de areia branca nas dunas relíquias, uma torre no ponto natural mais alto ao sul de Orlando, e o casebre de um eremita dos anos 1930 quatro milhas rio acima num rio em que só se chega de barco.
A maior parte da gente que mora em Jupiter nunca pisou ali dentro. A galera de West Palm confunde o parque com o refúgio nacional quinze milhas mais ao sul. O turista que persegue praias do Atlântico passa pela entrada todo santo dia sem perceber. Esse é o fosso. É por isso que continua sendo o pedaço mais selvagem num raio de noventa minutos de Miami.
Se você tem uma única manhã na Treasure Coast e sabe remar, pula a praia. Vai para o JDSP, aluga uma canoa no centro de remo até as 8h da manhã, e os reflexos do cipreste no rio ficam só seus por duas horas.
O que é, de fato
O Jonathan Dickinson State Park fica do lado oeste da US-1, em Martin County, batizado em homenagem a um quacre náufrago de 1696 que caminhou destas restingas até Santo Agostinho. Coordenadas: 27,025°N, -80,117°W. Do nascer ao pôr do sol, $6 por carro, o ano inteiro. Telefone do parque: 561-746-1466.
Lá dentro existem quatro ecossistemas distintos empilhados de um jeito que você não vê em nenhum outro lugar da Flórida. Pinheiral em terreno mais alto, com longleaf pine, palmito-de-vassoura e marcas pretas de queimadas controladas. Restinga de pinheiro-da-areia nas dunas relíquias — a cordilheira da Hobe Mountain — onde o gaio-do-cerrado da Flórida ainda nidifica e as tartarugas-gopher cravam suas tocas na areia branca. Brejo de cipreste no curso alto do rio. Manguezal e estuário salobro onde o mesmo rio se alarga em direção ao Intracoastal.
E tem o rio em si. O Loxahatchee, braço noroeste, virou em 1985 o primeiro rio Wild & Scenic federalmente classificado da Flórida. São 209 rios desse tipo nos Estados Unidos. Dois ficam na Flórida. Esse aqui é o que você consegue remar, da floresta de cipreste até o estuário de maré, numa única manhã.
A remada — o motivo de vir até aqui
Duas formas de entrar.
Por dentro do parque. O centro de remo do lado leste do parque (placa indica a partir da estrada principal, perto do retorno do camping) aluga canoa e caiaque. Algo em torno de $30 a $45 por meio dia, dependendo do equipamento. Você parte numa curva lenta de água escura e rema rio acima até onde o braço aguentar. A água é tânica — cor de café, não suja — e os joelhos do cipreste saem da margem em fileiras lentas. Jacaré em cima de cada tronco. Grande, pequeno, daqueles que ficam olhando com um olho aberto e não se mexem. Biguás secando asa no galho seco. Uma garça-azul-grande deixa você passar a seis metros e levanta voo sem barulho nenhum.
Essa é a remada de cipreste de verdade. Duas horas rio acima e duas horas de volta cobrem o trecho bom.
Pela cabeceira, Riverbend Park (Jupiter Farms). Põe a canoa lá em cima e desce seis ou sete milhas até dentro do JDSP. É a remada mais selvagem — canais mais estreitos, mais tronco caído, menos gente — mas chata logisticamente. Ou você deixa um carro no take-out do JDSP (cais do Trapper Nelson ou centro de remo) ou paga shuttle. Não tente remar contra a correnteza na volta a não ser que esteja se penitenciando.
Fauna que você vê de verdade se entrar n’água antes das 9h: jacaré (em dezenas, não em unidades), garça-azul-grande, garça-azul-pequena, garça-tricolor, íbis, biguás, gaviões-pescadores no alto. Manhãs de inverno na parte baixa salobra do rio — peixes-boi, de verdade, respirando na superfície. Ao amanhecer ou ao entardecer, se for paciente e silencioso, lontra-de-rio na margem. Onça-parda (bobcat) ronda a beira do rio; você não vai ver uma, mas o guarda jura que tem.
Hobe Mountain — sim, sério
Vinte e seis metros acima do nível do mar. Isso faz dela o ponto natural mais alto do terço sul da Flórida.
Soa piada até você subir a torre de madeira no topo, olhar para o leste e perceber que dá para enxergar o Atlântico. Olhe para o oeste: pinheiral até o horizonte. Olhe para baixo: você está em cima de uma duna-relíquia de pinheiro-da-areia, vegetação tão árida e arranhenta quanto qualquer coisa do centro da Flórida, a três quilômetros do Intracoastal.
A trilha até a base da torre são uns 800 metros saindo da estrada principal do parque. Arenosa, exposta, fácil. Sobe os degraus da torre e você tem o melhor mirante de graça do sudeste da Flórida. Leve binóculo e dá para identificar a praia de Hobe Sound, a faixa de mansões da Jupiter Island e, em dia limpo, a linha do recife offshore um tom mais escuro que o resto do mar.
Essa parte do parque funciona com criança. Tempo total ida-e-volta do estacionamento: quarenta e cinco minutos. Custo: zero além do pedágio do portão.
Trapper Nelson — a lenda do Loxahatchee
Vince “Trapper” Nelson chegou em Hobe Sound nos anos 1930, ocupou uns quarenta e tantos acres a quatro milhas rio acima do cais moderno do parque, e viveu ali sozinho por trinta anos como o autoproclamado “Homem Selvagem do Loxahatchee.” Caçava guaxinim, vendia peles, mantinha um mini-zoológico para turistas de barco vindos de West Palm, plantava horta, desconfiava do mundo moderno. Morreu em 1968 — tiro, oficialmente autoinfligido, mas os locais ainda discutem o caso.
O parque preservou as cabanas dele, as jaulas, as hortas. Não tem estrada. A única forma de chegar é de barco, partindo do cais principal do JDSP — seja na sua própria canoa (reserve quase o dia todo, ida e volta), seja no passeio interpretativo do parque. O passeio dura mais ou menos duas horas e meia, custa de $25 a $30 por adulto (confirme o valor no centro de remo; o barco não roda todo dia), e inclui um naturalista a bordo na ida e uma visita guiada à casa-museu na chegada.
É a experiência mais “sul-da-Flórida-romântica” dentro do parque, e a maior parte de quem mora em Jupiter nunca fez.
Pinheiral, restinga e o resto do parque
A terra firme longe do rio é a história mais lenta. East Loop Trail — 9,3 milhas, uma trilha de dia inteiro que cruza os quatro ecossistemas. Menos famosa que a Anhinga Trail lá no Everglades, mas você cruza com um carro numa manhã. A Florida Trail passa por ali; um ou outro caminhante de longa distância carimba o livro no escritório do camping.
Mountain bike: nove milhas de singletrack, areia e raiz, atravessando restinga e pinheiral. Leve bike com suspensão e aceite que de vez em quando você passa pedalando ao lado de um jacaré tomando sol na trilha. Os ciclistas adoram o lugar; os pedestres reclamam dos ciclistas; o guarda dá de ombros.
Olha para o chão em qualquer trilha arenosa e você vê tocas de tartaruga-gopher. Olha para os troncos secos depois de uma queimada e você acha pica-pau-da-Carolina, nas partes do parque onde ainda nidificam. Gaio-do-cerrado da Flórida — única ave endêmica do estado — vive na cordilheira de restinga. (Para habitat mais denso de gaio-do-cerrado, o post de Oscar Scherer nesta série cobre a área central, mas o JDSP também tem gaios se você caminhar pela Hobe Mountain no primeiro raio de sol.)
As marcas de queimada controlada surpreendem visitante. Tronco preto, palmito carbonizado, broto verde novo voltando. É o ecossistema funcionando como tem que funcionar. Pinheiral e restinga manejados a fogo na Flórida morrem sem queimada; tudo de verde que você vê está ali porque alguém pôs fogo intencionalmente três ou cinco anos atrás.
Camping
Mais de noventa vagas de barraca e RV em dois campings, mais doze cabanas ($65 a $115 a diária, depende da temporada e do tamanho). As cabanas são o prêmio — paredes de madeira, ar-condicionado, cozinha completa, dois quartos. Reserva no ReserveAmerica com onze meses de antecedência para qualquer fim de semana de inverno; lotam. As vagas de barraca são privativas, separadas por paredões de palmito, com tomada disponível na maioria.
O banheiro coletivo cumpre. Chuveiro funciona. A lojinha do camping vende lenha e repelente e o essencial absoluto e mais nada — dirija até Hobe Sound para mercado.
Coruja canta de noite. O camping fica longe o suficiente da US-1 para você não escutar tráfego. A observação de estrelas é a melhor num raio de cem quilômetros do Palm Beach porque não tem cidade grande a oeste — só pinheiral e restinga até o Big Cypress.
Condições, honestamente
Inverno (dezembro a março): perfeito. 18 a 27°C de dia, umidade baixa, os mosquitos saem do rio, os jacarés ficam lentos, o reflexo do cipreste às 8h é o motivo de a gente voltar sempre.
Primavera (março a maio): flor de restinga, corte do gaio-do-cerrado, água ainda fria o suficiente para remar sem derreter. Cuidado com trovoada a partir de meados de abril.
Verão (junho a setembro): brutal. Sensação térmica de 38°C+, trovoada todo fim de tarde, nuvens de mosquito nos trechos de manguezal, maruim nas trilhas no crepúsculo. O rio em si está bom se você cair n’água antes das 9h e sair antes das 11h. As trilhas de cima ficam praticamente inviáveis no meio do dia — vá antes do nascer do sol ou pule a visita.
Outono (outubro a novembro): mais fresco, mas o risco de furacão vai até novembro. Depois de tempestade nomeada o rio pode ficar fechado uma semana.
Sinal de celular é falho no interior — 4G cheio perto da entrada e do camping, intermitente no rio e nas trilhas de trás. Não confie no GPS.
O que não é
Não é praia. Não tem frente para o Atlântico dentro do parque; o rio encontra o Intracoastal mas não tem estrutura para banho. Para dia de praia de verdade, a areia limpa mais próxima é a do Hobe Sound National Wildlife Refuge, quinze minutos a leste pela Bridge Road — $5 por carro, entrada separada, sem estrutura além de uma passarela.
Não é parque de peixe-boi no verão — os bichos sobem na parte salobra baixa do rio no inverno, sumindo nos meses quentes.
Não é bate-volta turístico. Você não chega, vê a coisa e vai embora. A graça desse parque é passar meio dia no rio e mais meio dia na restinga ou no camping. Quem dedica noventa minutos vai embora frustrado porque não chegou em nada que importasse.
O que ele É
O maior parque estadual do sudeste da Flórida, escondido à plena vista na US-1 em Martin County. O pedaço mais selvagem de terra num raio de noventa minutos de Miami. O rio que você rema do brejo de cipreste até o estuário de maré numa manhã. A duna de 26 metros com a melhor vista de graça da região. A casa-museu do único eremita do sul da Flórida que virou ponto turístico por acidente.
Os locais sabem. O turista passa em frente todo dia indo para lugar nenhum melhor.
Cartão prático
- Onde: 16450 SE Federal Highway (US-1), Hobe Sound, FL 33455.
- Coordenadas: 27,025°N, -80,117°W.
- Horário: Do nascer ao pôr do sol, todos os dias.
- Custo: $6 por carro. Aluguel de canoa/caiaque ~$30–45 meio dia. Passeio de barco até Trapper Nelson ~$25–30 por adulto. Cabanas $65–115 por diária.
- Melhor temporada: dezembro a abril. Pule julho–setembro a não ser que esteja comprometido.
- Pela I-95: Saída 96 (Bridge Road), leste 2 milhas até a US-1, norte 2 milhas até a entrada.
- Pela Turnpike: Saída 116 (Indiantown Road), leste 3 milhas até a US-1, norte 7 milhas.
- Escritório do parque: 561-746-1466.
- Leve: chapéu de sol, água (o dobro do que você acha), repelente, binóculo, óculos polarizado, dry-bag para a remada.
- Não deixe equipamento à vista no estacionamento do cais. Arrombamentos de carro acontecem de vez em quando.
- Combina com: praia do Hobe Sound NWR (15 min a leste), Blowing Rocks Preserve (20 min ao sul), farol de Jupiter Inlet (30 min ao sul).
Pula a praia na manhã que você vier. O rio abre ao nascer do sol e os reflexos de cipreste acabam às dez.
