Lugares Escondidos central

Egmont Key — Um Forte da Guerra Hispano-Americana e um Refúgio de Tartarugas na Boca da Baía de Tampa

Fique na boca da Baía de Tampa e olhe — aquela ilha é Egmont Key. Fortificações de 1898, um farol funcionando desde 1858 e um refúgio federal de vida selvagem cheio de tartarugas-gopher. Só se chega de barco. As ruínas são o tipo de lugar que um locador de cinema inventaria e um engenheiro do Corpo de…

por Silvio Alves
Ruínas de fortificação de concreto desmoronando, tomadas por uveiras-da-praia, numa ilha barreira arenosa com o Golfo do México ao fundo
Egmont Key — fevereiro — Wikimedia Commons · Egmont Key lighthouse01 · CC BY-SA 2.5

Tem uma ilha bem na entrada literal da Baía de Tampa. Dá pra ver dela do alto da Sunshine Skyway Bridge — uma mancha verde baixa entre o Golfo do México e o canal por onde todo navio de cruzeiro e cargueiro com destino a Tampa precisa passar. A maioria dos floridianos passa de carro perto dela por quarenta anos e nunca põe o pé lá.

É Egmont Key. E é um dos lugares mais estranhos e silenciosamente cinematográficos do estado.

O que é

Duzentos e oitenta acres de areia, palmeiras-anãs e tijolo vermelho, sozinhos no canal. Três coisas dividem a ilha, e nenhuma combina muito bem com as outras:

  • Fort Dade. Construído em 1898 para a Guerra Hispano-Americana. Canhões “disappearing” de doze polegadas, baterias de morteiro, pátio de parada, casas de oficiais, uma estrada de tijolo. Guarnecido até a Primeira Guerra Mundial. Nunca disparou um tiro em combate. O Golfo vem retomando o forte há um século — as baterias hoje estão meio enterradas, meio desmoronadas, com uveira-da-praia brotando dos emplacamentos de canhão.
  • O Farol de Egmont Key. Aceso em 1858. Ainda ativo. Ainda operado pela Guarda Costeira dos EUA. Automatizado desde os anos 1990. A casa do faroleiro não existe mais. A torre continua.
  • Refúgio Nacional de Vida Selvagem Egmont Key. A maior parte da ilha, na verdade. Áreas fechadas protegem tocas de tartarugas-gopher e ninhos de aves costeiras — andorinhas-do-mar-pequenas, talha-mar-pretos, pelicanos-pardos. As tartarugas não são tímidas. Elas vão passar do seu lado na estrada de tijolo como se a ilha fosse delas. E é.

Sem ponte. Sem aterro. Sem ferry de um cais estadual. Só se entra de barco.

O que dá pra fazer

O ponto de acesso civil é a Hubbard’s Marina, dentro do Fort De Soto Park, no extremo sul do condado de Pinellas. O ferry deles para Egmont faz uma única ida e volta na maioria das manhãs — sai por volta das 9h, volta por volta das 15h, mais ou menos US$ 30–40. A travessia leva cerca de 45 minutos pelo canal principal da Baía de Tampa, que já é um espetáculo por si só — provavelmente vai passar um cargueiro do lado que faz o ferry parecer brinquedo de banheira.

Na ilha, uma janela típica de 4 a 6 horas é mais ou menos assim:

  1. As ruínas do forte. Caminhe pela estrada de tijolo. Os poços dos canhões “disappearing” são os mais fotogênicos — bacias largas de concreto abertas para o céu, com os parafusos de fixação de ferro ainda no lugar. Não suba nas paredes instáveis.
  2. A cerca do farol. Não dá pra entrar. Dá pra ficar na base. São 26,5 metros, pintado de branco, fazendo o mesmo trabalho há 168 anos.
  3. Mergulhe de snorkel no rip-rap da ponta norte. Blocos de calcário empilhados ao longo da costa como contenção de erosão. Sargentos-major, vermelhos-do-mangue, ocasionalmente sheepshead e peixe-papagaio. No inverno, peixes-boi às vezes aparecem na água morna do canal. Visibilidade é média — isso não é Florida Keys, é a boca de uma baía industrial.
  4. A praia. Larga, branca, quase vazia. As únicas pessoas nela vieram no seu barco.

Condições, sem romantizar

A ilha é exposta. Não tem sombra fora das ruínas do forte. De abril a outubro torra — leve mais água do que você acha que precisa, protetor solar, chapéu, e tudo reef-safe se for nadar com snorkel.

Não tem banheiro. Não tem quiosque. Não tem posto de ranger. O que você leva, você traz de volta.

A janela do ferry é fixa. Perdeu a volta das 15h, vai dormir numa praia em refúgio federal de vida selvagem, o que é ilegal e também ruim.

O forte está desmoronando no Golfo ano após ano. A maré de tempestade dos furacões Helene e Milton em 2024 levou pedaços de costa e pelo menos a borda de uma bateria. O que tá lá hoje pode não estar daqui a dez anos. Não é exagero — é a avaliação oficial do Park Service.

O que NÃO é

Não é destino de praia. Pra isso vá pra Fort De Soto, Caladesi ou Honeymoon Island.

Não é museu. Tem placas interpretativas, mas nada de guia, loja de souvenir ou ar-condicionado.

Não é Fort Jefferson. Aquilo é Dry Tortugas — 18 horas de barco a partir de Key West, um hexágono de tijolo que dá pra ver do espaço, viagem totalmente diferente.

O que É

A noventa minutos do centro de St. Pete você consegue ficar dentro de uma bateria de artilharia costeira abandonada de 1898, ver uma tartaruga-gopher passar do seu lado numa estrada de tijolo construída quando McKinley era presidente, e olhar pra cima e ver um farol que vem sendo aceso toda noite desde o ano anterior à Guerra Civil americana.

Poucos lugares na Flórida costuram história militar, infraestrutura marítima funcional e refúgio federal de vida selvagem numa tarde caminhável. Menos lugares ainda exigem 45 minutos de barco pra chegar, que é exatamente por que continua tão quieto.

Vá entre novembro e maio. Leve água. Olhe onde pisa — a tartaruga tem preferência.

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Silvio Alves
Silvio Alves
Publicado 22 de março de 2026